domingo, 7 de dezembro de 2008

As paredes têm ouvido



Deitada, pude auscultar a agonia. Pra mim, homens não sentiam dor. Julguei ser exclusiva. Ele resolveu falar comigo. Lacônico, particularmente. Como uma terapia para o meu universo. Pretendeu me encontrar. Mendigou até. Chegou com seu automóvel. (Que ar de independência!). Nunca deixou de ser subordinado à mãe. Miseravelmente, um burguês. De certo, eu havia mudado. Não pôde olhar nos meus olhos. Sentou-se. Acendeu um cigarro. Curvou-se. Ainda com a cabeça baixa, elogiou meu vestido. Corei. Perdera a boa aparência. Na verdade, estava um trapo, carinhosamente detalhando. Lembrou a nossa infância. Na hora, eu ri. Olhou pra mim. Ele disse que estava com saudades. Não foi bom ouvir aquilo. (Não foi?). Definitivamente, não. Pediu desculpas. Falou que não sabia amar. O silêncio. Olhei para o chão. Colocou a mão no meu queixo. Fiquei perplexa. Então, foi a minha vez de pedir desculpas. Não gosto de contato! Fazia frio. Pegou uma foto. Nossa. Um choro súbito. Lágrimas dele. Eu ri pela segunda vez, por dentro. O tempo que passou marcou nossas peles, lembrei. Um mesclado de silêncio e dor. Liguei o rádio. Recordo-me das nossas conversas. Ele ameaça um sorriso. Insegurança nos olhos. Daquela mesma cor.
Que pra sempre guardarei. Chegou perto de mim. Tinha o mesmo cheiro. Italiano. Hesitei.
Toma conta de mim? (Falou baixinho no meu ouvido). Peguei um lápis. Desenhei uma mulher. Chegou mais perto. Fechei os olhos. Mostrei a porta. Ele não mudou.

Um comentário:

Kalye Duranki-Amon disse...

mudar é uma coisa doida..às vezes vc pensa q mudou e n mudou, noutras vc nem percebe e mudou pra caramba..é tudo tão relativo...

já dizia einstein rs..

bjos!